24 de jun de 2015

Dia 19: O Sal da Terra (28 de março)

Normalmente, quando eu falo sobre filmes, eu inicio a partir do meu próprio envolvimento com algum aspecto nele presente. O que chamou minha atenção, o que eu amei ou detestei, a presença de uma narrativa que não me deixou olhar para o lado... Então, foi uma surpresa gratificante ver um reconhecido cineasta com Wim Wenders iniciar sua jornada pelo trabalho do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado  sob a perspectiva do que havia chamado a sua atenção primeiramente: duas fotografias de Salgado que Wenders adquiriu e das quais gosta muito. 

Seu relacionamento com a arte de Sebastião Salgado é o que o levou a participar do documentário indicado ao Oscar 2015 O Sal da Terra (The Salt of The Earth), co-dirigido por Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, o filho mais velho de Sebastião.

Não se trata de um documentário convencional, o que me agradou bastante durante todo o filme. Desde a primeira cena, as lágrimas vieram aos meus olhos, tomando uma residência permanência ali até os créditos finais, quando eu olhei para meu outro amigo Rodrigo (Pinheiros) em espanto e admiração pelo que havia presenciado. 

Documentários não são os meus favoritos. No entanto, eu não sei se é porque sempre escolho aqueles que se destacam ou são bastante recomendados por amigos (eu raramento assisto a esse gênero sozinha, ao contrário do que acontece normalmente), mas eu sempre acabo por assistir a documentários incríveis, tanto que eu questiono minha resistência em chegar mais frequentemente a esse tipo de narrativa.  

Não obstante, eu tenho que enfatizar que o que mais me encantou no filme de Wenders e Juliano foi o quanto diferente ele é dos documentários tradicionais. Primeiramente, não se trata apenas de Sebastião Salgado, ou do seu trabalho como fotógrafo (um dos principais protagonistas), mas ele é um filme com Sebastião Salgado. Por longas cenas, ambos artistas, cada um genial a seu modo, sentados lado a lado, observam e discutem as fotos, narradas por Salgado em uma conversa com Wenders - e conosco, consequentemente. Dois mestres das imagens contando sobre o mundo por meio de sua arte. 

Filmado em sua maior parte em preto e branco, três idiomas fazem parte da narrativa: inglês para Wenders e Juliano, principalmente francês para Salgado, que passou a maior parte de sua vida adulta em Paris, e alguns trechos em português. Este último é mais fraquente no final, quando Sebastião aparece em sua terra natal, por fim, na fazenda da família, hoje parte do projeto de reflorestamento da mata atlântica chamado Instituto Terra.

Eu falei tanto e não disse ainda o mais importante: a jornada humana dolorida, linda, aterrorizante, estarrecedora de Salgador em suas fotografias. Há uma progressão durante o filme, e o cinema foi se tornando cada vez mais silencioso a cada parte. Em determinado momento, Rodrigo diante das imagens retratando os poços de petróleo em chamas no Kuwait, virou-se para mim e disse: tanta tragédia, e ele ainda assim é capaz de alcançar uma imensa beleza. 



É verdade.  

E com dessa verdade essencial presente nas suas fotos nós caminhamos da estupidez humada, da tragédia, da violência até a incrível beleza da terra. Wenders nos situa no máximo da dor e tristeza para, ao final, nos lembrar que, ao mesmo tempo em que é possível perdermos a fé na humanidade, o mundo é extremamente belo, repleto de recursos, e há pessoas que conseguem restorar a nossa fé constantemente. Artistas são assim - Wenders com seus filmes, Salgado em suas fotografias. Ao mesmo tempo em que denunciam o horror que há no mundo, seja perto ou distante fisicamente, ms sempre nosso, eles nos contam também da imensa beleza e da esperançosa busca pelo equilíbrio, paz e justiça no mundo. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/03/day-nineteen-march-28.html
O Sal da Terra (The Salt of the Earth). Dirigido por Juliano Ribeiro Salgado
 eWim Wenders.  Com: Sebastião Salgado, Juliano Ribeiro Salgado, Lélia 
Winick Salgado, Wim Wenders. Roteiro: Juliano Ribeiro Salgado,  
Wim Wenders, David Rosier e Camille Delafon. França/Brasil/
Italy, 2014, 110 min., Dolby Digital, Color/P&B (Cinema). 


PS: Apesar de maravilhoso, eu  pensei como parecia faltar algo no filme em algumas partes. Talvez ele seja tão bom justamente pelo que falta, mas uma coisa me intrigou. O protagonista é, como disse antes, o trabalho de Salgado, visto por meio de suas fotografias. Mas sua vida pessoal não se encontra separada do trabalho - e seu filho como um dos diretores do documentário é um argumento nesse sentido. Em algumas partes, o filme se torna realmente pessoal, mas algumas questões ficam ausentes. A que mais me chamou a atenção relaciona-se a Lélia, a esposa de Salgado e seu amor desde quando eram estudantes. Em muitas de suas falas, Wenders, também o narrador do filme, nos conta como  ela foi sempre a verdadeira força por detrás do trabalho de Salgado. Por longos períodos de sua vida juntos, eles tiveram de se separar em virtude dos projetos fotográficos de Sebastião. Eu pensei muto no que isso teria representado para ambos, especialmente para ela, que criou duas crianças praticamente sozinha em um país estrangeiro. Juliano se refere um pouco a essa ausência constante do pai, mas a voz de Lélia só é ouvida ao final, quando ela se refere ao trabalho no Instituto Terra. Essa provavelmente foi uma opção dela, mas eu senti falta de uma maior presença da sua voz no documentário.  

PPS: Ainda no que diz respeito a Lélia, eu pensei muito em  Mil Vezes Boa Noite, o filme do 13º dia. Tanto Salgado quanto a personagem de Juliette Binoche encontram sua forma de estar no mundo através das imagens, e fazem um imenso trabalho social dessa maneira. Mesmo que eu normalmente não me prenda a questões de gênero, eu não pude deixar de pensar em como a jornada dos dois fotógrafos, um real e outro ficcional,  possuíram um diferente impacto nas suas vidas familiares devido à diferença de gênero. 

PPPS: Rodrigo e eu cursamos uma disciplina de linguística durante um semestre com a principal especialista na comunidade Zo'é no Brasil. Uma das imagens mais alegres e vibrantes do filme é uma que retrata os nativos pintados de vermelho com o verde intenso das folhas de bananeira ao fundo. É uma imagem tão linda e forte que eu lamentei que a fotografia fosse em preto e branco no livro (claro que nós dois corremos para a livraria mais próxima ao cinema para viajar também pelos livros de Sebastião Salgado - estávamos ainda presos às imagens, como outros clientes na mesma livraria).

PPPPS: Ok, não tenho muito certeza sobre essa forma de post post post post scriptum, mas outra memória durante o documentário veio da minha adolescência. Paris, Texas1984; Asas do Desejo (Wings of Desire, 1987); Até o Fim do Mundo (Bis ans Ende der Welt, 1991) foram grandes referências para mim à época (e ainda hoje).  Minha mais antiga e amada amiga, Pan, costumava dizer para mim, ao final de um filme do diretor alemão: Wivendores e aprendedores :) 

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