22 de jun de 2015

Dia 8: Timbuktu (17 de março)

Feliz dia de São Patrício (Ao menos era quando comecei a escrever este post). 

É preciso esclarecer que há uma quantidade respeitável de Guinness nestas linhas, e justamente em referência a um filme sobre o qual eu não tenho muita certeza. 

Timbuktu é um belo filme, indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2015. O deserto, os personagens, o modo como somos conduzidos para dentro de uma comunidade tomada por rebeldes jihadistas através da vida de seus habitantes nativos.  

O nó na minha garganta foi crescendo diante das várias injustiças projetadas na tela. Os invasores não têm ouvidos nem olhos para a realidade local, o que fica mais evidente no filme pela babel que se instala na vila: árabe, francês, inglês, bambara, songhay são algumas das linguagens listadas na produção. Assim, um julgamento de homicídio é conduzido por meio de traduções descuidadas e grosseiras, dificultando o entendimento e qualquer noção de justiça. 

Mas esse é o quadro mais geral, e o filme diz respeito também às realidades menores, constituintes da vida cotidiana: um homem é forçado a tirar as suas calças no meio da rua por conta do comprimento considerado inadequado por lei (como?). As pernas de suas calças se recusam a permanecer no comprimento permitido, dobradas na altura do calcanhar, e então ele tem de tirá-las, caminhando pelas ruas só com a roupa de baixo.  Violência ocasionada pela estupides burocrática em sua imensidão, ressaltada belamente na partida de futebol que ocorre sem a bola (uma cena que vai ficar para sempre comigo). 

Uma violência que obriga os habitantes da vila a se perderem no deserto, correndo pela areia em direção a lugar algum. Um lugar em que a pessoa considerada louca é aquela com maior lucidez afinal (o que não é surpreendente, na verdade). 

E diante desse quadro, eu passei todo o filme com as mãos no meu rosto, tentando lidar com tal injustiça.  

Mas a minha preocupação, referida no início deste post, é: mesmo em minha ignorância política abismal, não consigo ignorar um sentimento incômodo que me acompanhou durante a sessão de que Timbuktu pode ser um pouco simplista em alguns aspectos, apesar de seu retrato belo e complexo de alguns personagens e da situação. Uma preocupação que pode ocorrer pela falta de conhecimento a respeito da questão. Mas, para mim, é importante enfatizar esse desconforto, esperando que alguém possa discutir a questão comigo um dia... 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com.br/2015/03/day-eight-march-17.html


Timbuktu. Dirigido por Abderrahmane Sissako. Com: 
 Ibrahim Ahmed, Toulou Kiki, Layla Walet Mohamed. 
Roteiro: Abderrahmane Sissako, Kessen Tall. França/
Mauritania, 2014, 97 min. (que pareceu mais a duração de todo
o universo pela agonia sem fim) Stereo, Color (Cinema). 




PS: Fragmentos: Sete Dias com Marilyn (My week with Marilyn2011); O Lado bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012); Jude (Christopher Eccleston em 1996! Irreconhecível).

PPS: O (in)civilizado mundo dos frequentadores atuais das salas de cinema:



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