6 de ago de 2015

Dia 116: Locke (3 de julho)

Joe, meu querido amigo cineasta, indicou-me Locke na quinta-feira, e eu não pude esperar muito para chegar ao filme. De acordo com Joe, tratava-se de uma história cheia de suspense construída com apenas um personagem em seu carro durante uma viagem. O ponto era que, apesar do cenário restrito, com apenas uma pessoa em cena, ele não conseguiu desgrudar os olhos da tela até o final. Não à toa eu fiquei tão curiosa. 

Meu coração batia tão forte durante os 85 minutos do filme que eu pensei que ele fosse explodir antes do final, juntamente com Ivan Locke, magistralmente interpretado por Tom Hardy. O curioso é que o mais enervante nessa história não é nada mais nada menos que os problemas por que passa um homem comum na hora de decidir qual a melhor maneira de agir diante de uma encruzilhada complicada. Não há grandes explosões, ataques alienígenas, super poderes, espíritos do mal, bandidos malvados ou nada do tipo. É somente aquele homem e a vida, e como ela parece nos enclausurar em alguns momentos. 

Um homem sozinho com suas próprias escolhas encara o mundo do confinamento do seu carro sem outra opção (que ele mesmo escolheu) senão seguir em frente até seu destino, mesmo que ele seja terrivelmente incerto.  A respeito, eu cheguei a me ressentir um pouco das tomadas amplas da autoestrada, que nos tiram da claustrofobia do interior do carro. Eu entendo essa alternativa como uma forma de tornar o filme suportável, diminuindo um pouco a tensão estarrecedora. Mas eu preferiria o extremo de permanecer com Locke na solidão claustrofóbica de não haver outra saída senão aquela que põe tudo a perder. 

Os vislumbres do mundo externo vistos de dentro do carro, no entanto, são outra coisa: como ocorre com o motorista, algumas coisas chamam a nossa atenção, outras passam despercebidas. Essa é uma das sacadas mais inteligentes do filme, e ainda há muitas outras. 

Há muito tempo, alguém me disse que nós podemos lidar com a nossa bagagem familiar de duas formas: uma é seguir o script de família; outra, é negá-lo persistentemente. No final das contas, ambos os modos são a mesma coisa, porque passamos a vida presos em algo do qual buscamos desesperadamente escapar. A luta de Locke por fazer o que considera correto é uma maneira de ir contra o padrão familiar, e assim sendo ele somente consegue se afunda mais profundamente no que quer justamente evitar. 

Mesmo assim, eu concordo plenamente com a escolha dele. Não podemos ser nada mais do que verdadeiros a nós mesmos, é a única forma de ser e viver, eu acho. A ironia aqui é que, ao agir como acha mais correto, ele parece perder tudo na vida. Ele considera ter uma vida perfeita, mas o que suas decisões irão mostrar ao final é que se tratava na verdade de uma armadilha, e que as mudanças, apesar de assustadoras e incertas, são necessárias, permitindo que Locke encontre a si mesmo. Ou assim eu espero. 

Eu tinha tanto medo por ele, meu coração quase explodiu. Tom Hardy está incrivelmente bom aqui, e não somos capazes de sair do seu lado por um minuto. Seu Ivan Locke é forte, determinado, tão seguro, tão frágil, machucado, sozinho... Ele consegue falar com os outros com segurança e calma, enquanto seu mundo quebra em mil pedaços. E, ao fazê-lo, ele está sempre só, mesmo que rodeado por pessoas que parecem se importar com ele. O que ele descobre, por fim, é que alguns deles não se importam tanto assim. Já vão tarde, eu diria a ele. Mas é dolorido, eu sei. E, ao final, o que permanece ao seu lado é o que importa realmente.

Com essa percepção, nosso coração finalmente pode voltar ao seu ritmo normal, podemos também deixar o carro de Locke calmamente, certos de que tudo correrá bem para ele, mesmo com a previsão de tempos mais difíceis por um tempo. 

http://onemovieadaywithamelie.blogspot.com/2015/07/day-116-locke-july-3.html

Locke. Dirigido e escrito por Steven Knight. Com: Tom Hardy, Olivia
Colman, Ruth Wilson 
(Mas não era só uma pessoa no carro: Então... :).
Inglaterra/EUA, 2013, 85 min., Datasat/Dolby Digital, Color (Netflix).


PS: Sempre há cineastas tentando contar uma história de forma mais peculiar a fim de captar os aspectos mais humanos de seus personagens e narrativas. Alguns são puramente estéticos, outros mais simples - ambos tentam, porém, se aproximar da vida. Locke traz essa característica narrativa peculiar. Outro filme que me lembra essa maneira de contar a história é Chuva (lluvia, 2001), filmado em sua maior parte dentro de um carro, como dois personagens que se conhecem em meio a um engarrafamento. 

PPS: Nos comentários abaixo, Joe se refere a entrevistas presentes no imdb.com com Steven Knight e Tom Hardy sobre o processo de construção dessa história. Apresento o link para as entrevistas a seguir, ressaltando como Tom Hardy está totalmente diferente de Locke, sem algo que somente bons atores conseguem alcançar (ok, já sei, e  uma boa maquiagem... mas não é o caso aqui). 

http://www.imdb.com/video/imdb/vi3771116825?ref_=ttvi_vi_imdb_5

http://www.imdb.com/video/imdb/vi3787894041?ref_=ttvi_vi_imdb_3



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